terça-feira, 25 de outubro de 2011

CAMPINA VERDE

A melhor hora para se iniciar uma viagem é de manhãzinha. Saindo nas primeiras horas do dia, com clima mais ameno e o transito tranquilo, a viagem rende mais. Para esta viagem foi tudo ao contrário! Já passava do meio dia quando rumamos para o triângulo mineiro, a fim de chegar à cidade de Campina Verde a aproximadamente 700 km de Belo Horizonte.

Até desvencilhar do transito de BH e Contagem, havíamos contabilizado uma hora em nossa viagem. Rapidamente passamos por Betim e o sol, nessas horas, “castigava”. Deixamos a BR 381 tomando o sentido do triângulo pela BR 262, que está sendo duplicada até Nova Serrana. Nos trechos sem duplicação chegamos a passar mais de meia hora atrás de carretas, que formavam grandes comboios, sem ter como ultrapassar. No rádio só se tocava três cantores: Paula Fernandes, Gustavo Lima e Vitor e Leo (um saco! não adianta mudar a estação). Este suplício seguiu por Bom Despacho, Luz, Campos Altos e Araxá, de onde resolvi seguir para Uberlândia passando por Nova Ponte. Coloquei um CREEDANCE para tocar e relaxei ouvindo “BAD MOON RISING”.

Era início da noite quando paramos para descansar próximo a cidade de Santa Juliana. Foi só o tempo de ir ao banheiro e tomar uma água para continuar a viagem; e por volta de oito da noite avistamos as luzes de Uberlândia (me impressionou o tamanho da cidade). Ali paramos novamente para abastecer e tomar informação sobre o rumo de Campina Verde. Seguimos em frente contornando a cidade nos guiando pelas placas que apontavam para Prata, e cerca de uma hora e meia após passarmos por esta, finalmente, chegamos ao destino.  Na entrada da cidade uma enorme e iluminada imagem de Nossa Senhora das Graças nos abençoava e intimamente pensei: Graças a Deus!


A cidade de Campina Verde, como várias outras nesta região, identifica suas ruas com números (as avenidas são ímpares e as ruas pares). A arborização urbana é feita com "Oitis”, a cidade é muito limpa e a igreja matriz é espetacular. O sotaque do povo é uma mistura de Goiano com Paulista, o “r” marcado, porém “arrastaaaado!”. Se não segurar, a gente ri do povo conversando!



Para ficar no quarto do hotel, somente com o ar condicionado ligado. O calor é tanto, que as pessoas ficam conversando até tarde da noite nas portas das casas esperando a temperatura abaixar.

Em uma fazenda na cidade de Itapagipe, a cachorrinha (PONPITA) do proprietário que nos acompanhava em uma vistoria de campo, não suportando o calor, cedeu às tentações de uma vereda e atirou-se em suas águas (que inveja!).


As terras no entorno da cidade são utilizadas para plantio de cana, e como estávamos no período de colheita e preparo do solo, sempre quando venta mais forte a cidade é tomada por uma nuvem de poeira.
Aqui ninguém torce para os times de Minas. Parece que estou em São Paulo! Quando o Corinthians ganha fazem até carreata. Não encontrei nenhum Atleticano sofredor para tirar um sarro!

Na zona rural da cidade constantemente vemos animais incomuns para a nossa região; Tamanduás, Araras e Emas. Os bichos ficam meio que perdidos nas plantações de cana. E por falar nisso, nem tão verde é o que sobrou das campinas desta região e se não fosse pelos canaviais intermináveis ou pelas águas do rio Verde, talvez tivessem que dar outra cor ao nome da cidade.




domingo, 2 de outubro de 2011

CIDADE DO CORAÇÃO

Os relatos que seguem, não tem a ver com as viagens dos últimos dias, são apenas lembranças de um lugar muito especial.

A cidade de Cordisburgo, é um dos lugares mais apaixonantes por onde já estive, tanto pelas belezas naturais quanto pela maneira amistosa e amável com que seu povo nos recebe. Cordisburgo consegue manter sua identidade cultural bastante preservada, e estar lá, é como uma vigem ao passado.

Na entrada da cidade, um enorme portal faz a saudação aos visitantes. Na avenida principal, um extenso canteiro central segue até a capela de São José. Lembro-me que, na época da construção do canteiro, o povo comentava que seria uma enorme churrasqueira que o Padre (Prefeito) estava construindo.

Ainda na avenida principal, do lado direito vemos uma escultura de uma preguiça gigante onde se localiza o receptivo turístico. Ali podemos contratar os serviços de um “Miguilim”, guias turísticos que além de mostrar os principais atrativos da cidade, são especialistas na arte de “contação” de histórias.

Um pouco antes do receptivo, no lado esquerdo da avenida, está sendo construída a casa elefante. A obra é de um artesão da cidade que, após o término da construção, irá morar dentro do elefante. Fez lembrar-me da antiga história do "Mestre Jonas" que morou dentro da baleia.

 A "Gruta de Maquiné" é o principal ponto turístico da cidade. É sem dúvida um monumento natural de beleza única.

Na saída para Santana do Pirapama fica o "Zoológico de Pedra". Trata-se de uma praça com várias esculturas de animais pré-históricos. No passado, em 1834, o naturalista "Dr. Peter Lund", fez importantes descobertas paleontológicas no interior da Gruta de Maquiné, e por isso a cidade explora este tema como atrativo turístico.
Um dos melhores restaurantes da cidade é o de D. Haydée "CHERO’S BAR". O ambiente é totalmente rústico, a comida é ótima e fica em frente à gruta. Nos fundos, temos a visão de uma imensa "bocaina" e a mata fechada repleta de angicos. Certa vez, D. Haydée explicou-me que o motivo do nome do restaurante era em função do apelido de seu falecido marido (CHERO).
 
Melhor que a deliciosa comida, são as histórias contadas por D. Haydée. Em dias de semana e com pouco movimento, se estiver com sorte, ela pode te contar ótimas histórias. As melhores são as da gravação do filme “O Diamante Cor-de-rosa” com Roberto Carlos. A gruta foi utilizada como cenário de parte do filme e no restaurante existem algumas fotos do “Rei Roberto”.

No centro da cidade fica o restaurante “SARAPALHA”. O ambiente retrata uma casa antiga de roça. Nas paredes, trechos de alguns contos de Guimarães Rosa (o mais ilustre filho da terra) fazem a decoração. No fogão à lenha, o frango caipira nos convida a uma viagem no aroma e sabor.

Uma das melhores cervejas que já tomei, foi no "TRAILER DO SASÁ", na companhia do amigo Zé Eugenio e seus casos malucos.

Cordisburgo possui uma linguagem própria. O português, falado por lá, sofre algumas variações. As letras “L” e “R”, em algumas palavras, são substituídas pelo “I”, assim, palavras como ALMOÇO e MARMITA são pronunciadas “AIMOÇO” e “MAIMITA”. Outra peculiaridade interessante na linguagem coloquial Cordisburguense, é a maneira carinhosa com que chamam os amigos de “CAVALO” (TÔ COM SAUDADE DOCÊ CAVALO!).

Na praça “Miguilim”, foi construído o “Portal Grande Sertão”, um monumento em homenagem ao escritor "João Guimarães Rosa". O portal, com sete figuras em bronze e em tamanho natural, retrata o autor de "Sagarana" e seis vaqueiros, a cavalo, acompanhados de um cachorro.

Logo em frente fica a "Cooperativa dos Produtores Rurais", um dos lugares em que eu mais ri e melhor fui recebido na vida! Local cheio de histórias! Ali fiz várias amizades e tive a oportunidade de conhecer grandes figuras. Graças a estas pessoas, Cordisburgo se tornou a cidade do meu coração.

sábado, 17 de setembro de 2011

REDESCOBRINDO O PRÓPRIO LUGAR

Certa vez ouvi de um professor que quando queremos enxergar muito à frente, acabamos por não perceber o que está em nossa volta. Como quem usa um binóculo e enxerga muito bem o que está longe, mas tem desfocada a imagem do que está próximo. 

Na ocasião a conotação era outra, tratava-se das oportunidades perdidas por estarem próximas demais e assim passavam despercebidas. Da mesma forma, muitas imagens passam despercebidas por nossas retinas simplesmente por fazerem parte de nosso cotidiano; lembrei-me disso, por ter passado tanto tempo em Sete Lagoas sem perceber algumas belas paisagens.

O início da obra em que estamos fica no município de Inhaúma na localidade denominada “QUEBRA CANGALHA”. Ali encontramos com o Sr. Milton (Miltinho como é conhecido pelos vizinhos) fazendo o trato do gado. Miltinho é nativo da região, nos recebeu muito bem em sua residência com uma prosa amistosa e fala mansa; nos contou alguns casos intercalados em tragos no cigarro de palha, estrategicamente, guardado atrás da orelha. 
 
No início da manhã de um sábado na fazenda Caeté, fui surpreendido por um Lobo Guará no pasto à beira da estrada de terra. A falta de costume em ver estes animais na natureza me deixou meio paralisado e perdi a oportunidade de fotografá-lo. 

A coleta de documentação dos proprietários é um dos maiores desafios para a agilidade do serviço. Muitas pessoas têm receio em fornecer informações pessoais a desconhecidos, o que realmente é muito perigoso nos tempos de hoje. Mas esta etapa também é a mais interessante e por vezes muito engraçada. 

Ao percorrer a faixa de transmissão recebi a informação de que um dos proprietários, Sr. Totonho, residia em Sete Lagoas, entramos em contato e agendamos uma visita para realização do cadastro. Neste primeiro contato percebi, pela dificuldade na fala, que se tratava de uma pessoa de idade avançada, mas nem de longe poderia imaginar a dificuldade que teríamos para a coleta da documentação. Passamos uma tarde inteira na casa do cidadão esperando que ele encontrasse seus documentos em suas várias carteiras, embrulhos de papel, pacotes de plástico... e o moço parecia procurar por algo que ele não sabia o que era. Sem contar de sua filha, que me pareceu não ter o juízo perfeito, “buzinando” na cabeça do moço sem parar. Eu que me considerava tranquilo e paciente não suportei a situação, pedi a permissão para eu mesmo procurar os documentos, pois já se passava mais de duas horas que estávamos ali.

A fazendinha do Sr. Totonho está no município de Esmeraldas entre as regiões do Vale Bom Jesus e Andiroba. Ela possui uma bela cachoeira e uma enorme lapa conhecida como “LAPA DO TOTONHO”, muito visitada por banhistas e para camping.
 

Outra figura marcante foi D. Elane, mais conhecida como Rosa. Foi o cadastro mais complicado por possuir três inventários em andamento e vários herdeiros para encontrar e cadastrar. Dona Elane ou Rosa foi muito simpática e receptiva conosco. Ela é a inventariante de uma das partes envolvida no cadastro e nos recebeu várias vezes em sua casa. E por falar nisso, sua casa é um caso a parte, me pareceu que estava preparada para mudança. Na sala onde eu fiquei, vi de tudo, de santo a garrafas de bebidas e esculturas de tudo enquanto é bicho. Confesso que foi errado o que fiz, mas não resisti e disfarçadamente fotografei sua sala.
 

Em outra oportunidade, agendamos um sábado de manhã o cadastro de um proprietário dono de uma pousada (POUSADA RURAL). Chegamos no horário marcado e ao descer do carro percebi algumas pessoas com folhetos nas mãos formando duas filas Indianas e de frente para uma pessoa vestida de terno. Imaginei ser uma celebração religiosa, mas levei um enorme susto quando do nada ouvi vários berros pedindo por socorro partindo de uma grota no meio da mata ao lado da pousada. Demorei a entender o que estava acontecendo, quase sai correndo para prestar ajuda, quando a pessoa que estava de terno a frente da fila começou a gritar com uma das pessoas para que ela fosse até o lugar. Achei tudo muito doido, mas percebi que existia uma “treta na parada” e ao caminhar para a recepção descobri que se tratava de um curso ou treinamento de liderança.


 

O município de Esmeraldas é em extensão um dos maiores de Minas Gerais e possui vários vilarejos que resistem ao tempo e ao avanço do crescimento da região metropolitana de BH.

terça-feira, 12 de julho de 2011

ARAÇUAÍ (O POLO DO VALE)

Era fim de tarde quando saímos de Salinas. O sol se despedia calmamente e o calor dava uma trégua. Até Araçuaí era cerca de 120 quilômetros e tratei de acelerar para chegar rápido ao destino. A estrada até Coronel Murta está em ótimo estado (apesar de ser estreita e sem acostamento). No entanto, dali em diante, esburacada, sem sinalização e muito perigosa.

Chegamos à cidade no início da noite. Deixamos as bagagens no hotel e saímos para jantar. No trevo da cidade existe uma enorme escultura de uma arara. Procurei na internet pelo significado de Araçuaí e todas as respostas faziam menção a ave “Arara” (RIO DAS ARARAS GRANDES).

Conta-se que a região era um ponto de permuta de mercadorias entre os canoeiros da Bahia e Minas, e que por conta disso atraíram também várias mulheres de “vida fácil” e muito consumo de bebidas alcoólicas. Um padre que queria criar uma vila no local não permitiu a pratica de prostituição e consumo de bebidas, expulsando dali todas as prostitutas. Estas, por sua vez, receberam o abrigo de uma fazendeira na região. Em função disso os canoeiros mudaram o porto de permuta para a região da fazenda que acolheu as prostitutas e neste local surgiu um vilarejo com o nome de Calhau que, com o crescimento, chamamos hoje de Araçuaí “O polo do Vale”.

O centro comercial da cidade encontra-se do lado direito da rodovia e está em um nível bem abaixo desta, de onde pode-se avistar somente os telhados e as torres das igrejas. O clima é mais agradável (pelo menos venta!). O comércio é bem movimentado com muitas lojas e pessoas pelas ruas. Em frente à rodoviária fica o mercado municipal, que durante a semana tem pouco movimento, mas no final de semana o lugar se transforma. O centro antigo é muito bonito, com vários casarões e igrejas bem conservados. A praça em frente ao Banco do Brasil é lindíssima; totalmente restaurada com um chafariz na altura do piso da praça.

Por todos os lugares que vamos, percebemos uma exploração ou certa supervalorização de alguns produtos por serem artesanais e por perceberem que não somos da região. Aqui não acontece isso, os preços são justos e as pessoas (comerciantes) agradáveis, são tão simples que se sentem honrados por saberem que seus produtos vão “viajar” para outra região.

O trecho entre Araçuaí e Itaobim nos deu a verdadeira dimensão do lugar conhecido pelo sofrimento do povo e a aridez do solo. Miséria não encontramos, mas quem não é nativo, sofre bastante aqui. Este é o detalhe, as histórias que sempre ouvimos do vale, talvez fossem descritas por pessoas que se imaginavam no lugar do povo daqui e em cima disso projetavam seus possíveis sofrimentos como se fossem os do povo do vale. Se existe toda a miséria que sempre ouvi  falar, ela está bem escondida! Daniel (Porqueira) me disse uma vez, que Itinga era o lugar mais pobre que havia conhecido. Eu não vi isso aqui. A cidade não tem se quer uma rua de terra, Ribeirão das Neves tem pavimentação em menos de 10% de suas ruas.

Mas a região é realmente muito quente e árida. A vegetação, mesmo próxima ao rio, é bem rala, a terra é seca com vários pontos de afloramento de rochas. As pastagens são fracas e foram vários córregos secos (intermitentes) que vimos durante este tempo. Contudo, a paisagem é muito bonita. O fim da tarde na região de Itinga e Taquaral é um espetáculo divino. O sol impõe um tom dourado nos meandros do Jequitinhonha e as sombras das rochas de seu leito manso descrevem paisagens fantásticas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Salinas (A terra da cachaça)

Chegamos a Salinas por volta do meio dia. Um giro na cidade até encontrar o hotel e não pudemos deixar de observar que aqui em todo lugar tem uma loja de representação de cachaça ou um estabelecimento (de farmácia a açougue) com um expositor de diversas marcas da bebida.

Na portaria do hotel (Eldorado) existe um grande expositor com diversas cachaças e uma pequena dorna com a bebida para degustação. Como era hora do almoço, resolvi tomar uma "lapada" para abrir o apetite. Servi uma dose em um copinho de vidro (na CEDAF chamávamos de TCHUPI), fiz a oração: “Pinga de moço rico, pinga de moço pobre. Dizem que quem bebe pinga não junta dinheiro, mas como eu não tenho pra juntar...” e joguei o “mereijo” no peito. Não sei se foi falta de fé na oração ou o quê, mas o certo é que desse momento em diante meu corpo ganhou uma "bambeza", minha garganta começou a doer e o olho a arder. Contraí um vírus de gripe contido no líquido daquela dorna, deve ter sido olho gordo de cachaceiro!

Uma das piores coisas que pode acontecer quando estamos viajando é ficarmos doente (e trabalhando é pior ainda). Tratei de ir à farmácia e me municiar de BENEGRIPE, NALDECON E CORISTINA (se seu fígado não derreter, com um dia a gripe vai pro inferno!). Por falar em remédios, cuidado ao pedir, aqui em Salinas, PINICILINA E DIPIRONA. Explique que você quer remédio, pois aqui são marcas de cachaça também.

O mercado municipal, o de Salinas é fantástico; fica no centro da cidade e é enorme, possui duas entradas e dentro um fervilho de gente vendendo e comprando, almoçando pelos corredores nos balcões à beira das cozinhas. Isso mesmo, diversas cozinheiras preparam comida em boxes e as pessoas almoçam nos balcões nas laterais de cada cozinha em frente ao fogão.


Queria comprar carne de sol, e um vendedor, para demonstrar a qualidade e maciez do produto, enfiava a unha do dedo polegar na manta como quem estivesse vendendo colchão ou travesseiro (pensei: talvez depois da fritura as bactérias morram!). Todo comerciante, após realizar uma venda, diz: Deus lhe pague! Achei muito legal o agradecimento, a demonstração de qualidade meio nojenta (mas a carne depois de pronta, estava uma delícia!).

O comércio de Salinas é bem movimentado e a cidade é muito bonita. O calor aqui é de matar, mal vejo a hora de retornar para casa, tocar meu violão e rever os amigos e parentes. 

Malas prontas, carne de sol, queijo, doce, rapadura, farinha e muita cachaça. No entanto, recebemos o comunicado para irmos à Araçuaí realizar um novo serviço.

sábado, 11 de junho de 2011

Rumo à Salinas

Na manhã de segunda acordamos, tomamos café, encerramos a conta no hotel, guardamos as bagagens no carro e rumamos para Salinas, a terra da cachaça. O dia amanhecera nublado, a temperatura caído bastante em relação ao dia anterior, as montanhas do lado esquerdo do rio estavam cobertas pelas nuvens. Na cidade o comércio começava a abrir as portas, crianças seguiam para a escola e algumas pessoas caminhavam talvez para o trabalho. Despedimos de Jequitinhonha, na saída da cidade duas mulheres e cinco crianças (duas de colo) caminhavam na beira da estrada numa tristeza desoladora.

O dia foi se abrindo e o sol se mostrando. No rádio o cd que havíamos gravado (Viola Urbana) embalava nossa viagem e tocava Bicho de Sete Cabeças. O rio, agora a nossa direita,  refletia, em alguns pontos, a luz do sol e suas águas tomavam um tom dourado. 
Para Salinas havia duas opções de trajeto a seguir. Poderíamos seguir até Araçuaí e de la Coronel Murta, Rubelita e Salinas. Ou então, subir a rodovia BR 116 partindo de Itaobim, passando por Medina até o entroncamento com a rodovia BR 251 próximo à divisa entre os estados de Minas e Bahia e nesta até Salinas. Decidimos pela segunda opção, atravessamos a ponte sobre o Jequitinhonha com 333 metros de comprimento e chegamos à cidade de Itaobim. No canteiro central, no trevo de acesso à cidade, uma placa dizendo “Itaobim a terra da manga” e a escultura gigante da fruta. A rodovia divide a cidade em duas, sendo que do lado direito está o centro político e comercial da cidade. 

À medida que afastávamos de Itaobim, tínhamos a nítida impressão que escalávamos a encosta do vale. A rodovia a princípio buscou caminho por entre as montanhas e depois teve que subi-las. Nestas alturas, o rosa de alguns Ipês floridos contrastava com o verde pálido da região.

A diante e à esquerda da rodovia surgia Medina. Algumas casinhas simples e o cemitério na encosta do morro. No carro o cheiro do cajá exalava à medida em que a temperatura aumentava. Mais a frente vendedores na beira da estrada com frutas, mel e queijos tipo cabacinha vendidos aos pares (O queijo cabacinha é originário da Itália onde recebe o nome de “Caccio Cavallo” traduzindo seria “Saco de Cavalo”). Paramos e compramos o queijo (mais tarde comeria, sozinho, um deles).

Ao atingirmos a rodovia BR 251 Andréa tomou a direção e daí em diante percebemos que a estrada cruzava um planalto e ao longe víamos o traçado da estrada e suas curvas a diante. Neste ponto a vegetação é de cerrado, o clima é mais ameno e de ambos os lados da rodovia se observa grandes pastagens e florestas de eucaliptos. A estrada, bem conservada, possui um movimento intenso de caminhões e carretas. É uma das principais ligações de Goiás e Triângulo Mineiro ao sul da Bahia.

Para trás ficaram Cachoeira de Pageú e Curral de Dentro, Salinas estava à frente quando repentinamente começamos a descer e a sensação de novamente adentrar no vale. Nestas alturas o calor era intenso e por falar nisso, o calor que conhecemos não se compara com este. Aqui além de quente é abafado e o calor corporal não se dissipa, promovendo um grande mal estar. Meu amigo Zé Manel, nativo do vale, se alto intitula como resultado da seleção natural, hoje vejo que ele tem razão. “Nêgo criado com leite em pó, filho de mulher da cidade” não sobrevive a isso!

Nos dois lados, à beira da rodovia, placas de propaganda de cachaça anunciavam a chegada de Salinas.

Jequitinhonha (A cidade)

A cidade completará em 2011, 200 anos. Nota-se nas pessoas uma certa ansiedade pela chegada da festa que ocorrerá em setembro. É o que se comenta na cidade. 

As pessoas, com seu sotaque meio abaianado, não têm pressa de nada. Seus casos são contados minuciosamente, com mais detalhes que um filme, e até os tristes são engraçados.
O melhor bar da cidade é o do hotel (Bela Vista): cerveja gelada, tira-gosto, e ainda serve almoço e jantar. A música ambiente é o que mais me agradou (depois da cerveja); somente artistas do vale e em um volume que permite ouvir e conversar. Pedi o garçom para gravar um CD que estava tocando (VIOLA URBANA). É uma releitura de canções populares, feita no maior bom gosto. Dentre as músicas eu destaco BICHO DE SETE CABEÇAS e TELHA NUA (http://som13.com.br/viola-urbana/telha-nua-flor-dagua).

O mercado municipal fica mais ao centro na mesma rua do hotel. Trata-se de um galpão com lojas nas laterais internas e ao centro. São vários açougues com carnes expostas sem refrigeração (algumas salgadas) e outras barracas onde se vende farinha, fumo, pimenta do reino em grãos, vassouras feitas da haste do cacho de arroz, bucha vegetal, café torrado (em grãos e moído) e muito mais.

Aos sábados acontece uma feira em frente ao mercado. O lugar fervilha de gente e mistura rico, pobre, claro, escuro, menino, homem, mulher e até bicho com gente. Observei a maior concentração de jegue por metro quadrado; por todo lado tem um, arreado ou à paizana, apeado em uma árvore ou poste e até mesmo soltos pelas ruas.

Existe entre os feirantes, uma relação muito interessante que é a troca de mercadorias (escambo da idade média). Presenciei um senhor trocando fumo por farinha e não foi um caso isolado! Eu perguntei e me disseram que é muito comum.  As pessoas trocam o que produzem por outras mercadorias sem o intermédio do dinheiro ou de atravessadores. Assim é o mundo sem o capitalismo! Nós pelo contrário, produzimos dinheiro com nossa força de trabalho e o trocamos por produtos.

Muitos dos expositores (feirantes) vêm de outras comunidades. Por falar nisso, a cidade fica na margem direita do rio e várias comunidades ficam na outra margem. A travessia das pessoas e veículos é feita por balsa, neste local (porto da balsa) alguns homens retiram areia do rio e transportam em canoas até a margem.

Em frente à entrada de Jequitinhonha, no trevo, está o acesso à Joaíma, na entrada da cidade existe uma ponte sobre o rio Anta Podre. A visita foi muito rápida, mas a cidade deixou uma ótima impressão. Ela está no topo de uma colina, preenchendo-a como se fosse aquele chapeuzinho que o Papa usa quando não está em serviço. É uma cidade muito bonita, com uma praça grande bem arborizada.

No vale, a figura mais estranha que encontramos foi quando estávamos almoçando em um restaurante de posto de combustível. Em determinado momento, encostaram dois ônibus de prefeituras (desses doados pelo governo do estado) e o restaurante ficou com quase todas as mesas ocupadas. Eram pessoas muito simples, provavelmente saíram de suas cidades para se consultarem em outra cidade com mais recurso (coisa comum). Na mesa em frente assentou-se uma senhora usando os cabelos amarrados formando um coque, uma camisa branca amarelada de poeira, saia azul até os pés e tênis vermelho. Achei estranho, pois ela não pediu nem tão pouco consumiu nada. De repente, surgiu uma música triste (dessas instrumentais que rodam em filmes de bang bang) que não dava pra saber de onde vinha; olhei para a televisão não era. Pensei ser algum carro e olhei para fora mas não achei. A música continuava. Andréa olhou para mim e perguntou de onde vinha o som. Olhei à volta mais uma vez e percebi que era a senhora da mesa em frente que assobiava com uma técnica incrível, sem fazer bico ou mover os lábios (tipo ventríloquo). Quando ela percebeu, seus olhos me fitaram de um jeito estranho! Andréa me perguntou mais uma vez e eu dei de pestana de olho a resposta. Terminamos de almoçar, paguei a conta e fomos para o carro sem dizer nada um pro outro, ao entrarmos no veículo soltamos a gargalhada (não da senhora, mas da situação) e quando falei dos olhos dela para mim, Andréa me mandou fazer o sinal da cruz (fiz três vezes por garantia!).


Retratos do Vale

Descobrindo o Vale

Era o início da manhã quando saímos de Sete Lagoas rumo ao Vale do Jequitinhonha. A  temperatura agradável daquele dia já nos dava a pista de como seria a viagem. A primeira parada foi para tomar café em Paraopeba no restaurante Dagmar. Café robusto, pão de queijo com linguiça e suco natural para fortalecer o corpo.

Deixamos a 040. São José da Lagoa, Tapera e Bananal ficaram para trás. Logo veio Curvelo e uma rápida parada para abastecer. Em seguida Inimutaba (não quis provar da água), seguido de Presidente Juscelino e Gouveia. Datas estava a frente e me lembrei do Serro, a  terra de minha querida mãe e onde nasce o rio que batizou o vale e a cidade para onde estávamos indo.

Ao subir o espinhaço nos surge Diamantina de tantas histórias. A curiosidade veio e não resistimos; rápida entrada, várias ladeiras, muitos saculeijos, algumas igrejas e a frustração de não ter encontrado o famoso mercado municipal. Saímos e rumamos em frente.
O dia aproximava-se de sua metade e como não sabíamos o que viria pela frente resolvemos parar para almoçar (restaurante fogão a lenha, bela paisagem, artesanatos diversos, cachaça e uma comida deliciosa).

Abastecidos seguimos; agora Andréa na direção e logo veio Couto Magalhães. Crianças na rua em frente à escola e na saída do lado esquerdo a mal falada “Casa da luz vermelha”. São Gonçalo do Rio Preto; acendi um cigarro e curtimos a paisagem ouvindo BEATLES (ALL YOU NEED IS LOVE). Senador Mourão, Carbonita, grandes retas de estrada, plantações de eucalipto e nestas alturas queríamos “atingir” Turmalina, que não demorou a chegar. Serpenteamos a serra avistando-a do outro lado do vale; uma ponte estreita e lá estávamos. Da estrada pela janela do carro, algumas casas e torres de igrejas era a visão que se tinha.

Próximo passo Minas Novas e dali em diante estrada de terra. Tomei a direção novamente após uma breve parada para eu verter água na beira da estrada. Muita poeira, paisagem embaçada, pedras e buracos, quando surge Chapada do Norte. Um homem com uma carga de queijos no lombo do jegue ( isso mesmo, jegue ou jumento, sei lá; carregando duas caixas de couro – bruacas ou canastras - me lembrou filmes antigos - Mazarope), nos informou o rumo de Berilo. Mais poeira, pedras e estrada um pouco pior; encontramos apenas um carro em sentido contrário. Demorou até que algumas casinhas foram aparecendo. Pessoas com a pele curtida pelo sol, olhares profundos e tristes (nos fez lembrar a música “COMO É SOFRIDA A VIDA DO POVO QUE MORA NO VALE”). E a cidade estava em festa, muitas pessoas pelas ruelas e ladeiras estreitas, vendedores de tudo em quanto há (panelas, pilão, gamelas, cintos de couro e chapéu, dentre outras quiçássas).

Mais estrada de terra e Virgem da Lapa “A PRINCESINHA DO VALE” terra do amigo José Márcio, como demorou! Enfim asfalto novamente; parada para abastecer e para que Andréa fosse ao banheiro.  Abastecer não foi possível, não havia álcool na cidade. O frentista ainda brincou dizendo “álcool só pra beber!” (A empresa recomenda o abastecimento com etanol). 

Seguindo viagem, na saída da cidade, trânsito parado para esperar a passagem de uma comitiva. Um boi mais arisco escorrega no asfalto (cena inusitada) e após algumas curvas surge Araçuaí (O polo do vale segundo José Márcio). Já era tarde e muita gente voltava para casa após o dia de trabalho. Mais uma parada em um posto e abastecimento com gasolina. Também não havia álcool! 

As luzes já começaram a ascender e o sol despedia-se. À esquerda o Jequitinhonha nos acompanhava como quem quisesse ensinar o caminho. Nestas horas o cansaço estava nítido. Meu rosto brilhava como pele de frango assado e o que se ouvia era apenas o som do vento no vidro da janela misturado com o motor do carro. Foi quando  me lembrei que na noite anterior havia feito compromisso com meu amigo Zé Manél, que está lá nos “states”, de conhecer seu tio em sua terra (Taquaral). Era para procurar o boteco do Vicente no lugarejo, mas quando passamos por lá já era noitinha e resolvi deixar para a volta (passaria durante o dia) e seguimos em frente. 

Veio Itinga e Pasmado com venda de cerâmicas na beira da estrada, retratando figuras e seres do vale. E ao aproximarmos da BR 116 avistamos, à esquerda, as luzes Itaobim (do contador de casos Tadeu Martins).
Percebemos o significado geográfico de vale. Na estrada já não havia subidas ou descidas, apenas suaves curvas para direita para esquerda, o rio do lado, paredões de rocha dos dois lados e o carro (valente) seguia na mesma toada. 

Um pequeno incidente: ao coçar os olhos cansados, levei para eles a mistura de suor e protetor solar. A ardência foi tamanha que me cegou por um instante e tive que parar. Resolvido o problema, foi questão de uns 40 minutos para chegar ao destino: Jequitinhonha. Ao contrário das cidades anteriores está em topografia plana. A igreja possui uma torre exuberante que se avista de qualquer ponto da cidade, muitos casarões antigos e bem conservados (não é de estilo barroco) e aos fundos o rio Jequitinhonha com seu leito rochoso formando algumas ilhotas. O hotel fica de frente pro rio e a paisagem é lindíssima.